Uma doença cardíaca que pode passar desapercebida…
O caso do ator Rafael Cardoso chamou a atenção para uma condição cardíaca que muitas pessoas ainda desconhecem: a cardiomiopatia hipertrófica (CMH).
Em 2021, o ator revelou ter sido diagnosticado com uma forma de cardiomiopatia hipertrófica e passou por um procedimento para implantação de um cardioversor-desfibrilador implantável (CDI), dispositivo utilizado em pacientes selecionados que apresentam risco aumentado de arritmias ventriculares graves e morte súbita.
Mas o mais importante não é apenas o caso de uma pessoa famosa. A história chama atenção para uma questão que merece ser conhecida por todos: algumas doenças do coração podem existir durante anos sem causar sintomas evidentes.
O que é a cardiomiopatia hipertrófica?
A cardiomiopatia hipertrófica é uma doença do músculo cardíaco caracterizada, principalmente, pelo aumento anormal da espessura de uma ou mais regiões do coração, sem que isso seja explicado apenas por condições como hipertensão arterial ou doença das válvulas cardíacas.
Em muitos pacientes, existe uma alteração genética relacionada à doença. Por isso, a cardiomiopatia hipertrófica pode ocorrer em diferentes pessoas de uma mesma família e merece atenção especial quando há histórico familiar de cardiomiopatia, desmaios inexplicados ou morte súbita em idade jovem.
A doença apresenta diferentes formas e graus de gravidade. Algumas pessoas permanecem sem sintomas e levam uma vida normal com acompanhamento adequado, enquanto outras podem desenvolver falta de ar, dor no peito, palpitações, desmaios, insuficiência cardíaca ou arritmias importantes.
A Diretriz Brasileira sobre Diagnóstico e Tratamento da Cardiomiopatia Hipertrófica, publicada pela Sociedade Brasileira de Cardiologia, destaca os avanços atuais no diagnóstico, avaliação do risco e tratamento da doença, incluindo o uso de métodos de imagem e, em situações selecionadas, investigação genética.
Quais são os sintomas da cardiomiopatia hipertrófica?
A cardiomiopatia hipertrófica pode não provocar sintomas, principalmente em algumas fases da doença. Quando eles aparecem, podem ser confundidos com falta de condicionamento físico, estresse ou outras condições.
Entre os possíveis sinais estão:
✔ Falta de ar, especialmente durante esforços;
✔ Cansaço excessivo;
✔ Dor ou pressão no peito;
✔ Palpitações ou sensação de coração acelerado;
✔ Tontura;
✔ Desmaio, principalmente durante ou após atividade física;
✔ Redução da capacidade para realizar exercícios;
✔ Em casos mais avançados, sinais de insuficiência cardíaca.
Um ponto de atenção especial é o desmaio inexplicado, principalmente quando ocorre durante o exercício. Esse sintoma precisa ser investigado por um cardiologista.
A cardiomiopatia hipertrófica pode causar morte súbita?
Sim. Embora isso não aconteça com a maioria dos pacientes, algumas pessoas com cardiomiopatia hipertrófica apresentam maior risco de desenvolver arritmias ventriculares graves, que podem levar à morte súbita.
Por isso, não basta descobrir que existe uma hipertrofia do músculo cardíaco. É necessário avaliar qual é a causa, o grau da doença e o risco individual de cada paciente.
A avaliação pode considerar fatores como histórico familiar de morte súbita, episódios de síncope, características da hipertrofia cardíaca, presença de determinadas arritmias e achados em exames de imagem, entre outros fatores.
É justamente por isso que o acompanhamento com um cardiologista especializado em avaliação cardiovascular pode ser fundamental.
Como é feito o diagnóstico?
O diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica começa com uma avaliação clínica detalhada e pode envolver diferentes exames.
Dependendo de cada caso, o cardiologista pode solicitar:
Eletrocardiograma: ajuda a identificar alterações na atividade elétrica do coração.
Ecocardiograma: é um dos principais exames para avaliar a espessura do músculo cardíaco, o funcionamento do coração e a presença de obstrução à saída do sangue.
Holter: permite acompanhar o ritmo cardíaco durante um período prolongado e identificar arritmias que podem não aparecer em um eletrocardiograma convencional.
Ressonância magnética cardíaca: fornece imagens mais detalhadas do coração e pode ajudar na avaliação da estrutura do músculo cardíaco e de alterações como fibrose.
Teste ergométrico ou outros testes funcionais: podem ser indicados em situações específicas para avaliar a resposta do coração ao esforço.
Avaliação genética: pode ser considerada em determinados pacientes, especialmente quando existe suspeita de doença hereditária e para auxiliar na investigação de familiares.
A escolha dos exames depende da história clínica, dos sintomas, do exame físico e dos achados de cada paciente.
Quem deve ficar especialmente atento?
A investigação cardiológica merece atenção especial quando existe:
- Histórico familiar de cardiomiopatia hipertrófica;
- Casos de morte súbita inexplicada na família, principalmente em pessoas jovens;
- Desmaios sem causa definida;
- Palpitações frequentes;
- Dor no peito ou falta de ar durante exercícios;
- Alterações encontradas em exames cardiológicos;
- Suspeita de doença cardíaca hereditária.
Quando existe diagnóstico de cardiomiopatia hipertrófica na família, a avaliação dos parentes de primeiro grau pode ser recomendada de acordo com a idade, o contexto clínico e as características da família. Em determinadas situações, a investigação genética também pode fazer parte do acompanhamento.
Cardiomiopatia hipertrófica tem tratamento?
Sim. E esse é um ponto importante: receber o diagnóstico não significa que a pessoa necessariamente terá complicações graves.
O tratamento é individualizado e depende da forma da doença, dos sintomas, da presença de obstrução, das arritmias e do risco de eventos cardiovasculares.
Podem ser utilizados medicamentos para controle dos sintomas e de determinadas alterações cardíacas. Em pacientes selecionados, podem ser indicados procedimentos para redução da obstrução do fluxo sanguíneo ou a implantação de um cardioversor-desfibrilador implantável (CDI) para prevenção de morte súbita.
A escolha do tratamento deve ser feita após uma avaliação cardiológica completa e individualizada.
O que podemos aprender com o caso de Rafael Cardoso?
A história de Rafael Cardoso reforça uma mensagem importante: não espere o coração apresentar um problema grave para começar a cuidar dele.
Algumas doenças cardíacas podem permanecer silenciosas por bastante tempo. Por isso, sintomas aparentemente simples, alterações em exames ou um histórico familiar relevante não devem ser ignorados.
O objetivo de uma consulta cardiológica não é apenas tratar doenças já instaladas. A cardiologia também atua na prevenção, identificação precoce dos fatores de risco e acompanhamento individualizado da saúde cardiovascular.
Seu coração não precisa esperar um sintoma aparecer para receber atenção!!
Uma avaliação cardiológica adequada pode ajudar a identificar alterações precocemente e orientar os cuidados necessários para proteger sua saúde cardiovascular ao longo da vida.
